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Uma vez um jovem discípulo propôs a seguinte questão a um grande sábio:
Mestre, qual é o valor do Tao?"
O sábio deu uma explicação, mas o discípulo não entendeu.
O sábio sabia que explicações através de palavras nem sempre são adequadas. O melhor
meio de cultivar o Tao é o aprendizado pela experiência direta.
Pegou uma pedra em sua mesa, e escreveu um endereço em um pedaço de papel. Pegue
esta pedra e vá até este endereço. Quando chegar lá, quero que pergunte às pessoas
quanto eles pagariam pela pedra. Não a venda; apenas descubra quanto as pessoas estão
dispostas a pagar.
O discípulo foi até o endereço, e viu que era um mercado aberto. Havia muitos
mercadores apregoando suas mercadorias, e muitos compradores olhando e regateando.
Começando com a pessoa mais próxima, o discípulo mostrou a pedra e perguntou
Desculpe, quanto você pagaria por esta pedra?
A maior parte das pessoas o ignorou e continuou seu caminho. Algumas o olharam com
sarcasmo, outras riram dele. As poucas que falaram disseram coisas como
nada, não, obrigado ou saia daqui.
Após aproximadamente uma hora, uma senhora teve pena dele, e disse Talvez possa
usá-la como peso para papéis. Aqui tem um real. Ela ofereceu o dinheiro, mas ele
meneou a cabeça e agradeceu.
Ele voltou e contou sua experiência ao sábio: Mestre, a maior parte das pessoas
não tinha nenhum interesse pela pedra. O máximo que consegui foi uma oferta de um
real
Muito bem disse o sábio, dando-lhe outro pedaço de papel. Agora, vá a
este endereço e faça a mesma coisa. Pergunte às pessoas de lá quanto
pagariam.
O endereço era em outra parte da cidade. Chegando lá, viu que era uma loja de jóias.
Entrou e viu as vitrines cheias de gemas resplandecentes. Atrás dos balcões os
atendentes tinham aspecto sério. Todos estavam com trajes formais.
O que deseja, meu filho? perguntou um dos balconistas.
Ahn.. Eu gostaria de saber quanto pagariam por isto. O discípulo mostrou a
pedra. O atendente olhou, primeiro surpreso, depois irritado.
Onde estão seus pais? Esta loja não é para crianças. Saia já. Fora, fora.
O discípulo pensou: Tudo bem, acho que acabou. É o mesmo resultado que obtive no
mercado. Virou-se para sair.
O gerente da loja viu o que acontecia. Olhou a pedra de relance, quando o discípulo já
estava na porta. Espere, deixe-me ver a pedra, meu filho.
O gerente examinou a pedra. Olhou intrigado, e a seguir arregalou os olhos. Mandou um dos
atendentes chamar o joalheiro-chefe na oficina, que ficava nos fundos da loja.
O velho joalheiro chegou, resmungando por causa da interrupção, mas quando via pedra
também ficou com os olhos arregalados. Examinou-a demoradamente por todos os lados com
uma lente. A seguir devolveu-a ao discípulo, e sussurrou alguma coisa no ouvido do
gerente.
Subitamente, o gerente era todo sorrisos. Meu filho, eu gostei de você, portanto
troco sua pedra por este doce. Concorda?
O discípulo meneou a cabeça. Eu preciso saber quanto o senhor estaria disposto a
pagar por ela.
Sei, disse o gerente. Que tal dez reais? Fechado?
Não senhor, não posso vender a pedra. E agora tenho que ir. Já tinha sua
resposta, portanto era ora de voltar para contar o resultado.
Espere, eu dou cem reais. É bastante dinheiro, Vamos lá, o que você diz?
Mais uma vez o discípulo recusou-se a vender e tentou sair. Mais uma vez o gerente
aumentou a oferta. O diálogo continuou até que uma oferta de dez mil reais foi
recusada.
Vamos fazer uma coisa disse o gerente, ainda sorridente mas começando a suar
Diga-me quanto quer por ela. Faça seu preço.
Eu não posso vendê-la por nenhum preço é o que estou tentando
explicar.
O gerente não teve alternativa senão deixá-lo ir.
O discípulo voltou para falar com o sábio. Estava intrigado. Mestre, a maior
oferta que recebi no mercado foi de um real. Agora as ofertas chegaram a dez mil, e
poderiam subir. Como se explica essa enorme diferença?
O sábio explicou: Em geral, as pessoas se preocupam com a aparência externa. A
pedra parece ser simples e comum, e portanto as pessoas do mercado a julgaram sem
valor.
Entretanto, há muito mais nessa pedra do que parece. Na realidade, é um diamante
de tamanho e qualidade extraordinários. Poucas pessoas tem a capacidade de reconhecê-la
pelo que realmente é. As pessoas do mercado não possuíam essa habilidade.
Mas Mestre, o atendente que queria que eu saísse também não a reconheceu, apesar
de trabalhar numa joalheria.
Estar na joalheria não é garantia de possuir um conhecimento real. Ele
provavelmente sabe o valor de todas as gemas da vitrine, porque estão todas
cuidadosamente empacotadas e claramente marcadas. Mas quando o assunto é reconhecer um
verdadeiro diamante em seu estado bruto... bem, ele não tem capacidade maior do que uma
pessoa comum.
E sobre o gerente e o joalheiro? O que os faz diferentes do atendente e das pessoas
do mercado?
O gerente suspeitou que pedra pudesse ser valiosa, porque tem anos de experiência
com todos os tipos de pedras preciosas. O joalheiro tem ainda mais experiência, pois
dedicou décadas de sua vida para se tornar um perito em gemologia. É por isso que ele
não suspeitou ele sabia o valor real da pedra.
Esta história não é sobre a pedra ou sobre o discípulo do sábio. É uma história
sobre o Tao.
A pedra não parece nada de extraordinário à primeira vista, mas se for adequadamente
cortada e polida por um especialista, o diamante revelará toda sua brilhante glória.
Analogamente, o Tao freqüentemente parece ser uma coisa simples e comum, mas quando um
verdadeiro mestre expressa ou explica uma verdade espiritual, o Tao revela sua brilhante
beleza.
O mundo em que vivemos é parecido com o mercado, que só cuida de transações
monetárias regatear, comprar, vender. O mundo é também um lugar
opressivamente materialista, preocupado com a aquisição de bens materiais etiquetas de
preço.
Os verdadeiros mestres do Tao são poucos e aparecem raramente, portanto a maioria das
pessoas tem pouco conhecem e pouco valorizam o Tao. Na história, isto pode ser visto na
reação das pessoas ao jovem discípulo. Apesar da pedra ser realmente muito valiosa, as
pessoas a encaravam com indiferença e mesmo com aversão.
O capítulo 41 do Tao Te Ching descreve como diferentes tipos de pessoas encaram o
Tao.
As pessoas de nível alto ouvem sobre o Tao
E praticam de forma diligente
Pessoas médias ouvem sobre o Tao
E algumas vezes o seguem e outras o perdem
As pessoas de nível baixo ouvem sobre o Tao
E riem dele
Se não rissem, não seria o Tao
Os três níveis citados são de refinamento espiritual, e não tem nada a ver
com as distinções usuais, como nível de educação, de inteligência, de classe social,
senioridade, títulos e cargos.
As pessoas que possuem um nível de refinamento espiritual alto reconhecem as verdades
espirituais quando as ouvem, pois estas ressonam profundamente nelas. Como na nossa
história, esses indivíduos são raros, e nenhum apareceu no mercado.
A maior parte das pessoas do mercado ainda estavam a uma longa distância desse nível.
Estavam acostumadas a tratar de coisas que podiam ver e tocar, como os bens tangíveis do
mercado. O Tao intangível chegou sem embalagem colorida, posters promocionais ou um
preço que pudesse ser negociado; era uma coisa que não podiam compreender.
Também havia pessoas que riram do Tao. Geralmente, estas são as pessoas com o menor
grau de refinamento espiritual. Como vemos na descrição feita por Lao Tzu, é como se
ele estivesse se referindo diretamente sobre as pessoas que encontramos e que consideram a
espiritualidade do Tao como esquisita. Alguns chegam mesmo a expressar desdém
e ironia: Tao? Essa coisa New Age?
Elas encaram o Tao dessa forma por confundir preço com valor, como é comum no mundo
material. A hipótese é que qualquer coisa com preço alto tem automaticamente muito
valor, portanto alguma coisa sem preço não deve ter valor.
É exatamente o que o sábio observou na história: a maioria das pessoas se baseia na
aparência externa para estabelecer seus juízos de valor. A pedra não parecia nem um
pouco impressionante, e foi descartada como sem valor. Apenas os olhos mais perspicazes
puderam ver através da superfície e reconhecer o diamante.
Se o mercado representa o mundo em geral, a joalheria representaria uma instituição
religiosa, como um templo ou igreja.
Numa joalheria, artesãos cortam e fazem o polimento de pedras preciosas, e as apresentam
de forma conveniente para os compradores. Analogamente, uma instituição religiosa toma
conhecimentos espirituais, organiza-os e formaliza-os, e os apresentam para os que
procuram a espiritualidade.
Os anéis e gemas na vitrine da joalheria representam as doutrinas religiosas
empacotadas que encontramos diariamente. Os Dez Mandamentos, as Quatro Nobre Verdades, o
Caminho Óctuplo... São usualmente reconhecidos e considerados como valiosos, porque
estão claramente etiquetados como tal, da mesma forma que as gemas com as etiquetas
informativas e especificação do valor.
Costumamos ter a tendência a presumir que as pessoas em um templo tem conhecimento sobre
o Tao, mas como vimos pelo exemplo dos atendentes, nem sempre é assim. O nível de
conhecimento dos atendentes pode ser limitado a apenas o que pode ler nas etiquetas
o nome do produto e seu preço. Da mesma forma, uma pessoa num templo pode conhecer apenas
as doutrinas básicas, e muito pouco mais.
Expostas a uma verdade espiritual, as pessoas nesse nível terão muita dificuldade em
reconhece-la. Podem até rejeitá-la completamente sem a devida consideração, como vimos
na história quando o atendente tentou expulsar o discípulo.
O gerente da joalheria representa alguém com um nível maior de compreensão. É uma
pessoa que dedicou tempo e esforço estudando o Tao, e este estudo adicional o elevou
acima dos níveis mais baixos, onde as pessoas podem recitar frases e regras sem uma
compreensão real dos ensinamentos espirituais por trás delas.
Apesar do gerente parecer possuir a autoridade sob o ponto de vista dos atendentes,
ele empalidece em comparação com o joalheiro. O gerente conhece muito sobre pedras
preciosas, mas seu conhecimento deriva basicamente de livros de gemologia e trabalho com
produtos acabados. Seu conhecimento baseado nos livros pode parecer convincente à
primeira vista, mas quando confrontado com alguma coisa não descrita em seus livros, tem
de recorrer ao joalheiro para ajuda e esclarecimento.
O joalheiro representa o nível mais alto de conhecimento. É um verdadeiro mestre, porque
sua fonte primária de conhecimento não está em livros. Aprendeu a partir da prática
diligente, trabalhando diretamente com as pedras preciosas desde seu estado mais bruto
até os brilhantes anéis, colares e outras jóias.
Podemos concluir que a ação é o elemento crítico que separa um verdadeiro mestre do
Tao daqueles que possuem apenas conhecimento livresco. Os verdadeiros sábios não se
satisfazem em ler sobre o Tao, mas o cultivam através da experiência direta.
Da mesma forma que o joalheiro corta e faz o polimento de forma que as gemas fiquem
disponíveis para o público, o verdadeiro mestre do Tao estuda, contempla, disseca e
expõe verdades espirituais de forma que pessoas de nível menor possam compreender o Tao
com maior facilidade,
Considerando que Tao é simplesmente um termo genérico para a espiritualidade,
podemos concluir que os grandes mestres do passado Jesus, Buda, Lao Tzu e muitos
outros foram realmente mestres joalheiros. Eles observaram a beleza contida numa
pedra preciosa bruta chamada Espiritualidade. Eles puderam ver essa beleza, mas como a
maior parte das pessoas não pode, trabalharam para mostrá-la de uma forma que todos
pudessem apreciar.
O papel de mestre não está limitado a essas grandes figuras da história. Por exemplo,
há muitos escritores que podem tomar uma grande verdade espiritual e explicá-la de uma
maneira simples e fascinante. São também joalheiros. Quando você lê um livro
particularmente bom, que abre seus olhos sobre a vida, você se encontrou face a face com
trabalho de um mestre joalheiro.
O que tudo isto nos diz a respeito do valor do Tao? A resposta depende do nível do
indivíduo.
Num nível mais baixo, as pessoas do mercado não podem responder, porque realmente não
sabem. Os atendentes e o gerente podem lhe dizer o preço de qualquer peça de joalheria
da loja, mas o fato é que também não sabem o valor da pedra.
O joalheiro concluiu que a pedra não era menos valiosa porque estava num estado bruto. Na
verdade, isto a tornava mais valiosa que qualquer jóia pronta, porque poderia cortar
muitos diamantes de tamanhos diferentes a partir dessa pedra.
Este era o valor real da pedra, mas qual é o valor real do Tao?
Na história a pedra não foi vendida. Por que não?
Porque não estava a venda, como o discípulo disse para todos. Apenas o sábio
compreendeu que o valor da pedra era maior que qualquer soma em dinheiro. A pedra não era
uma mercadoria que se pudesse negociar no mercado.
Na perspectiva da joalheria, a pedra estava associada a um certo valor que estaria
disposta a pagar; na perspectiva do sábio não era possível regatear, comprar ou vender,
simplesmente porque a pedra não tinha preço. Não poderia ser adquirida por qualquer
quantia em dinheiro. Ao contrário de todos os anéis da joalheria, não tinha uma
etiqueta com preço.
O Tao está além do preço. O Tao é de valor inestimável.
E este é o verdadeiro valor do Tao!
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